Inácio Araujo

Cinema de Boca em Boca

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Inácio Araujo é escritor e crítico de cinema da Folha e autor de dois livros sobre o assunto: 'Hitchcock, o Mestre do Medo' e 'Cinema, o Mundo em Movimento', além de participar de diversas coletâneas.

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Não é nazismo

Por Inácio Araujo

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Não é Nazismo. Ainda não.

Yvonne Bezerra vs. Sheherazade é a batalha do momento.

Direitos humanos vs. “Adote um Bandido”.

Yvonne Bezerra é a diretora de Ong que tirou o assaltante preso num poste no Rio de Janeiro.

Sheherazade, a cara do Brasil Profundo.

Yvonne eu nunca vi na TV.

Sheherazade destoa de suas palavras. Tem um ar doce, de dondoca interiorana.

Talvez suas ideias expressem mesmo o ideário da dondoca caipira. Ela se diz “do Bem” e se acredita “do Bem”.

Mas isso é só uma expressão vazia, todo mundo já terá notado.

Quando passa à TV, Sheherazade inspira certa apreensão.

Não é raivosa como aquele apresentador da Record. Ela não se deixa levar pela paixão. É uma voz da razão.

A história:

Depois de libertar o rapaz, Yvonne Bezerra sofreu ameaças diversas.

Ficou, é claro, assustada. E na entrevista de ontem à Folha disse: “É um choque saber que vivemos numa sociedade nazista, fascista”.

Pode ser um choque, mas não é nazismo.

Pode-se pensar tudo do nazismo, mas a catástrofe que preparou e executou deveu tudo à organização.

Nada mais ordeiro do que o nazismo.

O caso brasileiro atual é outro: é de barbárie.

O que as pessoas fizeram com o assaltante não é nem justiça com as próprias mãos.

É linchamento.

Por isso, e pelo que diz, o caso de Sheherazade, não tem nada a ver com liberdade de opinião.

Trata-se de incitar ao linchamento.

Ela pode achar que o mundo será melhor se todos tivermos uma arma. Pode ser. É um ponto de vista.

O que aconteceu no SBT, o que se mostrou lá, não foi um ponto de vista.

É outra coisa.

E aconteceu numa rede nacional.

Hoje é um assaltante. Amanhã a defensora do assaltante. Depois de amanhã… qualquer um.

Isso é barbárie.

É a crença de que não existe nenhuma espécie de ordem. Que se pode não apenas pensar qualquer coisa, como agir conforme sua confusa percepção das coisas.

Qualquer um que julga estar a lei sendo descumprida pode fazê-la conforme o senso comum, conforme sua crença pessoal, sua religião, o que for.

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Esse é um caso muito grave, porque por ele pode-se perceber o país se desmilinguindo. Não chega a ser um faroeste caboclo, porque o faroeste é um momento que precedeu a implantação das leis.

Aqui o que se prega abertamente é o desrespeito a elas, após notar sua suposta falência.

Pode ser uma falha minha, mas não vi nenhuma intervenção do Ministério Público nessa história.

Ele que pega no pé por qualquer besteira até aqui parece estar fazendo ouvidos de mercador a toda essa história.

Talvez seja porque o país esteja se desmilinguindo,que meio ao acaso se mate as pessoas só porque não se gosta “da mídia” (a coisa é inteiramente genérica) e só reste mesmo se ocupar de pequeninces, à espera do melhor.

Isso não é anarquia: é mais uma explosão descontrolada de subjetividades.

Pode não ser o nazismo que Yvonne Bezerra teme.

Mas nós vimos “Dr. Mabuse”, vimos “M – O Vampiro de Dusseldorf”.

O horror está no horizonte.

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